Capítulo 4. A rapariga dos olhos cor de mel

No café do Hospital, Armando sentiu que alguém estava a olhar fixamente para ele. Sentiu-se incomodado e pressionado, mas não olhou imediatamente. Seria a rapariga dos olhos cor de mel?
Estava de costas. Os seus cabelos não demasiado compridos e louros caíam-lhe sobre os ombros suavemente. Assim observada com um rápido olhar, tinha algo que chamava atenção. Não sabia dizer o que era, e daí a sua primeira ideia. Estava de todo a tornar-se algo obsessiva. Mas… aquela mulher possuía algo, que lhe despertava a curiosidade. O quê não sabia ao certo. Mas possuía algo que só ela possuía. Essa foi uma certeza que o acompanhou mesmo antes de se dedicar a uma mais atenta observação. De repente, ela que estava a falar ao telefone, virou-se e o sol incidiu nos seus cabelos de um modo tão suave que a simples conjugação do som da sua voz, do seu sorriso e do brilho dos seus cabelos, o fez estremecer.
Os seus olhos, aquele formato de olhos. E de um momento para o outro, tudo se tornou claro como o oceano que estava contido dentro daquele olhar.
Eram azuis. Mas de um azul tão resplandecente que o parecia trespassar.
Por momentos sentiu-se atravessado, não porque tivesse sequer tomado conhecimento da sua existência, mas porque aquele olhar era tudo aquilo que poderia significar em termos puramente terrenos, a palavra felicidade. Transmitia uma força e ao mesmo tempo uma paz que jamais tinha sentido. Continham em si a atracção de quem somente o consegue sem o tentar sequer.
E o sorriso… Era lindo e suavemente natural, ao mesmo tempo que contagiava quem á sua volta se encontrasse. Seria impensável permanecer indiferente. Eram aqueles olhos. Sem dúvida nenhuma. Mas… e a cor? Não eram cor de mel, mas eram sem dúvida nenhuma aqueles que tinha visto anteriormente.
Então aos poucos percebeu o que se tinha passado.
O Sol resplandecente ao bater nos cabelos louros, e dependendo do ângulo, tornava-os detentores de outros matizes, daí a sua confusão.
Sentiu-se de repente, sem reacção. Teve a sensação de que poderia desmaiar ali mesmo - logo ele -, se ela se levantasse e lhe dirigisse directamente algum tipo de cumprimento. E lá estava ela, falando para o telefone e sorrindo. Sorrindo para alguém que estando longe, era contudo merecedor do seu sorriso. Falava exprimindo-se com uma graciosidade que o mantinha “colado” a ela, sem que fizesse um gesto sequer para o cativar, visto nem sequer saber da sua existência. Era algo natural. E logo ele.
Teve vontade de se levantar da cadeira e dirigir-se a ela, de modo a conseguir estabelecer uma conversa, sei lá, qualquer tipo de troca de palavras. Isso não interessava. O importante era conseguir escutar a sua voz, e vê-la sorrir. Captar ainda que por breves instantes, a sua atenção. Mas sobretudo vê-la sorrir.
Sorrir com aqueles lábios bem desenhados e complementados por aquele Mar que eram os seus lindos olhos.
Era uma antevisão de algo que ele não tinha desfrutado, mas que ao antever o fazia sorrir.
Decidiu-se: "Vou falar com ela! Vou usar a estafada pergunta, 'não nos conhecemos de algum lado?'"
Levantou-se de repente e naquele mesmo segundo a tal sensação de desmaio voltou, agora com toda a sua violência. Todo o bar do hospital girou à sua volta, mesas, cadeiras, batas brancas, muletas, olhos de mel e caiu.
Ainda conseguiu ouvir, antes que a sua consciência se esvaísse: "Está morto!"
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Armando abriu os olhos e viu a sua avozinha a sorrir para ele. Teria ela também morrido? Seria isto o céu? O inferno? Sentiu-se agoniado.
Parece que despertou de todas estas perguntas quando a avozinha lhe dirigiu a palavra: "Armando, Armando, acorda....". E sentia as suas mãos levemente sobre a sua cara.
Mas não conseguia responder-lhe. Apenas a via envolta numa névoa.
"Passa-se alguma coisa?", ouviu ele alguém perguntar à avozinha.
Fez um esforço para conseguir ver com menos névoa e, apesar de lhe custar imenso, conseguiu aperceber-se de quem tinha feito essa pergunta.
Foi aí que se apercebeu de que ainda estava vivo. Afinal não tinha morrido. Mas afinal o que se tinha passado então?
À medida que aquela névoa passava e via tudo com maior nitidez, reparou que estava rodeado de muita gente. As mãos que batiam na sua cara, eram as mãos dela, só não entendia porque tinha visto a sua avozinha. Devia ter sonhado ou delirado por breves momentos. As últimas 24 horas tinham sido emocionalmente e fisicamente esgotantes.
- Sente-se bem? - perguntou ela com a voz mais doce e suave que alguma vez tinha escutado.
Ele não conseguiu responder! Só olhava para ela.
Agora já não a via envolta em névoa. Viu-a tão claramente que se sentiu consumido. Não sabendo porquê, continuava paralisado. Talvez porque a sua voz fosse tão doce como a de um anjo. E os anjos intimidam.
Tentou balbuciar alguma coisa mas não conseguiu. Aqueles olhos penetrantes não o permitiam.
É como aquelas paisagens de tirar o fôlego e que só podem ser realmente apreciadas em silêncio.
- Eu ouvi um barulho. Parecia o disparo de uma arma.
- Eu vi um homem a fugir. - acrescentou outro senhor - tinha um casaco escuro.
"Porque tentam matar-me?" pensou Armando no meio daquela algazarra de vozes, gritos e dor.
Por escassos instantes o único impulso do qual tomou conhecimento, impelia-o a mergulhar naquele mundo de emoções, simbolizado no seu olhar límpido.
Depois esse impulso passou, e ficou a vontade consciente de mergulhar naquele olhar sem hesitações.
Era demasiado. Estava mesmo ali e falando para ele.
E a sua voz. Aquela voz tinha algo de doce e transmitia uma paz que se tornava difícil de descrever. E mostrava-se preocupada. Ela que alguns minutos antes nem sequer sabia da sua existência.
- Sente-se bem? – perguntou.
- Sim, sim, respondeu após alguns breves instantes de hesitação, tentando levantar-se rapidamente.
Sem uma explicação aparentemente válida, de um momento para o outro todas as suas anteriores sensações de fraqueza tinham desaparecido, e sentia-se subitamente a pessoa mais forte do mundo.
A mais forte, mas também a mais apaixonada.
Se o amor existia, se era possível que alguém se apaixonasse por outrem numa questão de segundos, então aquilo que ele estava a sentir devia ser amor.
Se não era possível, passaria a ser a partir daquele instante, porque ele estava apaixonado e tinha a absoluta consciência desse facto.
De repente, tudo à sua volta deixou de se reger de uma forma lógica. Só ela fazia sentido. Não que escutasse algo do que ela falava, mas sim porque ela falava para si. E que sensação.
Descrever com minúcia os instantes seguintes, tornar-se-ia fastidioso dado o caleidoscópio de emoções que experimentara, e que por essa razão se apresentava como impossível de descrever.
E porque nada de mais inteligente lhe ocorreu nesse momento, somente balbuciou um tímido “Olá”.
Ela, talvez apercebendo-se do seu constrangimento, sorriu com aquele sorriso doce que anteriormente o tinha já cativado.
- Que aconteceu? Perguntou Armando.
- Foi um cano do gás que rebentou. Acho que se aleijou alguém, disseram.
Armando olhou rapidamente para si mesmo e constatou que estava bem. Tinha sido uma estranha coincidência, o facto de ao desfalecer ter-se escutado tão grande estampido. O homem a correr, “coitado do homem” pensou, alguém que se calhar tentava inteirar-se da existência ou não de vítimas. Ou talvez corresse de medo. Não sei.
Ela ajudou-o a levantar com algum cuidado ao verificar a existência dos membros fracturados.
- Cuidado - dizia ela. Qual “cuidado”, qual quê. Nada doía naquele instante. Estava totalmente sarado.
Apoiou-se no ombro dela, que meigamente o segurou pela cintura de modo a conseguir sair dali. Andaram uns poucos passos, e sentaram-se num banco de jardim que por ali se encontrava, e ficaram ambos a olharem olhos nos olhos sem saberem muito bem o que dizerem, mas acima de tudo sem se importarem demasiado com esse facto. Somente os seus olhares se cruzavam. Palavras que as suas bocas se recusavam a proferir.
Era perceptível no ar aquela sensação de que algo está para acontecer, somente que ninguém poderá prever quando nem o quê. Foi ele o primeiro a quebrar o silêncio.
Tentou apresentar-se, e dizer talvez até algo mais, mas curiosamente as únicas palavras que a sua boca proferiu foram, “Obrigado”. Ela soltou uma gargalhada forte, deixando-o sem saber muito bem o que dizer ou fazer. “Qual foi a piada”, pensou.
Decorrido algum tempo ela perguntou-lhe:
- Como te chamas?
- Moras em Lisboa?
- Porque estás todo engessado?
- Estás cá internado?
Eram perguntas em catadupa, e ele não estava a conseguir responder a elas com o à vontade que desejaria.
Aos poucos lá foi dizendo que se chamava Armando, que sim, vivia em Lisboa, e que embora já tivesse estado ali internado, neste momento ali estava porque um familiar seu estava a ser assistido nas Urgências, e aproveitando o balanço, lá foi contando como é que o Filipe se tinha aleijado, sem no entanto entrar em muitos detalhes quando a si mesmo a conversa dizia respeito. Ela escutava-o, demonstrando um interesse, que servia para o incentivar a falar, falar, falar.
Passado algum tempo (quanto não sabia), perguntou-lhe:
- E tu? Conta-me algo sobre ti.
- Que fazes?
- Como te chamas?
- Moras cá?
- O que estavas aqui a fazer?
Ela esboçou um sorriso.
- Tantas perguntas. Tanta curiosidade...
Aquele simples sorriso desarmou-o. Ela no entanto começou por dizer que se chamava Ana, que era psicóloga e que estava ali porque tinha sido convidada para falar num congresso, na qualidade de convidada especial. Morava no Algarve e adorava esse facto.
- E mais? – perguntou Armando. Ela sorriu de novo, e respondeu:
- Isso terás que ser tu a descobrir.
- Olha lá – disse ela - porque não vais lá abaixo descansar durante uns dias?
Disse isto de um modo tão naturalmente surpreendente que se existissem ali moscas, provavelmente a sua boca teria ficado cheia delas, tal foi o seu espanto.
- E fico onde? – articulou.
- Em minha casa. Porquê? Tens alguma coisa contra?
- Não – respondeu – não.
- Tio!!! Tio!!!! Tio!!!! - gritavam as crianças em vão, querendo que o tio acordasse. Afinal parece que tinha adormecido ali, enquanto elas brincavam no jardim, e, agora as crianças queriam que ele se juntasse a elas.
“Mas e…?” ele sorria mesmo de olhos fechados, como se estivesse a flutuar além das estrelas.
- Tio!!! Tio!!!! Tio!!! Acorda, vá lá! - gritavam as crianças impacientes.
-Hã????" - acordou Armando meio estonteado, como que tentando se orientar.
- Tio, vá lá! Assim não tem piada, tu adormeces cada vez que nós te deixamos um bocadinho. Agora é a tua vez de ficares no jogo das escondidas!
Armando nem queria acreditar. Todas aquelas aventuras pareciam tão reais... tão desesperantes, mas ao mesmo tempo tão fantásticas. Pelo menos ela até se atreveu. “Sim, só em sonhos” pensou ele.
- Então vamos lá cambada, todos à molhada! E não garanto que não adormeça outra vez a contar! - disse Armando enquanto dava uma gargalhada.
E enquanto tentava de algum modo brincar com as crianças, uma ideia "martelava-lhe" insistentemente na cabeça. Tudo aquilo parecia ter sido tão real, tão vivido.
Não era homem de se deixar conduzir por pressentimentos, mas que pelo menos uma vez na vida iria deixar-se guiar pelos seus instintos, quer eles fossem produto de um sonho ou não.
Tudo aquilo tinha sido demasiado real e belo e se os sonhos existem realmente, então ele iria atrás do seu.
E ali mesmo de olhos tapados e brincando com os sobrinhos tomou talvez a decisão da sua vida.
Se era verdade que antes estava a sonhar, então agora e acordado decidira tomar a decisão que achara mais acertada. Seguiria no dia seguinte para o Algarve. Sem hesitações. Estava decidido.
“Ah o Algarve! Essa terra quente e com o cheiro a mar...” Imediatamente veio ao seu pensamento a última vez que lá estivera. Lembrou-se dos seus passeios à noite junto à Ria Formosa, em Olhão. Do seu amigo que o levou a conhecer o interior algarvio.
Levando a mão esquerda ao braço direito e, com um leve sorriso nos lábios, lembrou-se daquela noite em que esteve numa aldeia perto de Olhão a assistir a um concerto que tinha o palco para as bandas dentro de uma ribeira. Foi precisamente quando tocava uma das bandas com um nome engraçado que levou um valente empurrão e foi parar dentro da ribeira, deixando-o todo dorido.
Pensar nisso fazia crescer dentro dele uma expectativa grande. Como se de alguma forma, algo de muito bom e de novo estivesse para acontecer.
Tinha boas lembranças desses dias em Olhão e algo o puxava de novo para lá...
Apenas teria que resolver algumas coisas no trabalho. O facto de trabalhar por conta própria, dava-lhe uma certa liberdade para viajar nesta altura do ano. Iria ligar para o seu amigo Diogo. Ele tinha sempre a sua casa aberta para o receber. Assim que tratasse de tudo, seguiria viagem.
Sorriu mais uma vez, vindo à sua mente o nome de Natalina... a bela prima do seu amigo. Mas do que mais se recordava era do seu olhar meigo. Um olhar doce como “olhos cor de mel”! Seria ela a mulher do sonho? Teria sido um sonho?
Não porque Natalina fizesse de algum modo o seu "género", mas porque achou engraçado o facto de se recordar assim de repente de alguém que já não via faziam alguns anos, e que se algo teria em comum com toda aquela história, eram efectivamente os seus olhos, pois que tudo o resto jamais poderia algo a ver com a sua pessoa.
Não que a moça fosse de algum modo antipática ou pouco dada a novos conhecimentos ou experiências. Não. Simplesmente era daquelas pessoas que nada lhe dizia, e que jamais o conseguiria cativar para além daquilo que se resumisse a uma bela "amizade colorida". Só isso.
Mas, e porque prezava demasiado a amizade de Diogo, amigo de "outras batalhas", preferia descartar para já a tal hipótese da "amizade colorida". No futuro, talvez sim, talvez não. Por ora preferia ir para descansar e procurar a mulher por quem ele estava efectivamente apaixonado, e da qual não sabia mais do que aquilo que um duvidoso sonho lhe tinha revelado.
Mas, e se como diz a canção, " o sonho comanda a vida", então ele iria em busca da realização do seu, e decerto essa mesma vida que ele tanto prezava o bafejaria com a retribuição do amor que ele buscava e que tinha a firme certeza de existir algures, porque nestas coisas o coração não se engana de todo, e quem ama de verdade sabe que um grande amor espera por cada um de nós.
E embalado por estes pensamentos, tendo como som de fundo o som produzido pelas rodas do comboio ao passar pelas juntas dos carris, adormeceu. Novamente.

16 Comments:
Estava de costas.
Os seus cabelos não demasiado compridos e louros caiam-lhe sobre os ombros suavemente. Assim observada com um rápido olhar, tinha algo que chamava atenção. Não sabia dizer o que era, e daí a sua primeira ideia. Estava de todo a tornar-se algo obsessiva. Mas … aquela mulher possuía algo, que lhe despertava a curiosidade. O quê não sabia ao certo. mas possuía algo que só ela possuia
Essa foi uma certeza que o acompanhou mesmo antes de se dedicar a uma mais atenta observação. De repente ela que estava a falar ao telefone virou-se, e o sol incidiu nos seus cabelos de um modo tão suave que a simples conjugação do som da sua voz, do seu sorriso e do brilho dos seus cabelos, o fez estremecer.
Mas os seus olhos. Aquele formato de olhos.
E de um momento para o outro, tudo se tornou claro como o oceano que estava contido dentro daquele olhar.
Eram azuis. Mas de um azul tão resplandecente que o parecia trespassar.
Por momentos sentiu-se atravessado, não porque tivesse sequer tomado conhecimento da sua existência, mas porque aquele olhar era tudo aquilo que poderia significar em termos puramente terrenos, a palavra felicidade. Transmitia uma força e ao mesmo tempo uma paz que jamais tinha sentido. Continham em si a atracção de quem somente o consegue sem o tentar sequer.
E o sorriso.
Era lindo e suavemente natural, ao mesmo tempo que contagiava quem á sua volta se encontrasse. Seria impensável permanecer indiferente. De todo.
Eram aqueles olhos. Sem duvida nenhuma. Mas… e a côr? Não eram côr de mel, mas eram sem duvida nenhuma aqueles.
Então aos poucos percebeu o que se tinha passado.
O Sol resplandecente ao bater nos cabelos louros, e dependendo do ângulo, tornava-os detentores de outros matizes, daí a sua confusão. Que erro primário o seu.
Sentiu-se de repente, sem reacção. Teve a sensação de que poderia desmaiar (logo ele) ali mesmo, se ela se levantasse e lhe dirigisse directamente algum tipo de cumprimento. E lá estava ela, falando para o telefone e sorrindo. Sorrindo para alguém que estando longe, era contudo merecedor do seu sorriso. Falava exprimindo-se com uma graciosidade que o mantinha “colado” a ela, sem que fizesse um gesto sequer para o cativar, visto nem sequer saber da sua existência. Era algo natural. E logo ele.
Teve vontade de se levantar da cadeira e dirigir-se a ela, de modo a conseguir estabelecer uma conversa, sei lá, qualquer tipo de troca de palavras. Isso não interessava. O importante era conseguir escutar a sua voz, e vê-la sorrir. Captar ainda que por breves instantes, a sua atenção. Mas sobretudo vê-la sorrir.
Sorrir com aqueles lábios bem desenhados e complementados por aquele Mar que eram os seus lindos olhos.
Era uma antevisão de algo que ele não tinha desfrutado, mas que ao antever o fazia sorrir.
Decidiu-se: "Vou falar com ela! Vou usar a estafada pergunta 'Não nos conhecemos de algum lado?'"
Levantou-se de repente e naquele mesmo segundo a tal sensação de desmaio voltou, agora com toda a sua violência. Todo o bar da hospital girou à sua volta, mesas, cadeiras, batas brancas, muletas, olhos de mel e caiu.
Ainda conseguiu ouvir, antes que a sua consciência se esvaísse:
"Está morto!"
Arménio abriu os olhos e viu a sua Avozinha a sorrir para ele. Teria ela também morrido? Seria isto o céu? O inferno? Sentiu-se agoniado.
acho esta ideia engraçada... Já fiz isto quando era novo com um colega de Seminário... Se calhar um dia destescoloco aqui qualquer coisa... Mas este comentário podes apagar... óbvio..
Parece que despertou de todas estas perguntas quando a avozinha lhe dirigiu a palavra: "Armando, Armando, acorda....". E sentia as suas mãos levemente sobre a sua cara.
Mas não conseguia responder-lhe. Apenas a via envolta numa névoa.
"Passa-se alguma coisa?", ouviu ele alguém perguntar à Avozinha.
Fez um esforço para conseguir ver com menos névoa e, apesar de lhe custar imenso, conseguiu aperceber-se de quem tinha feito essa pergunta.
Foi aí que se apercebeu de que ainda estava vivo. Afinal não tinha morrido. MAs o que se tinha passado então?
À medida que aquela névoa passava e via tudo com maior nitidez, reparou que estava rodeado de muita gente.
As mãos que batiam na sua cara, eram as mãos dela... só não entendia porque tinha visto a sua avozinha. Devia ter sonhado ou delirado por breves momentos.
As últimas 24 horas tinham sido esgotantes emocional e fisicamente.
- Sente-se bem? - perguntou ela com a voz mais doce e suave que alguma vez tinha escutado.
Ele não conseguiu responder! Sò olhava para ela...
Agora já não a via envolta em névoa. Viu-a tão claramente que se sentiu consumido. Não sabendo porquê, continuava paralisado. Talvez porque a sua voz fosse tão doce como a de um anjo. E os anjos intimidam...
Tentou balbuciar alguma coisa mas não conseguiu. Aqueles olhos penetrantes não o permitiam.
É como aquelas paisagens de tirar o fôlego e que só podem ser realmente apreciadas em silêncio.
- Eu ouvi um barulho. Parecia o disparo de uma arma.
- Eu vi um homem a fugir. - acrescentou outro senhor - tinha um casaco escuro.
"Porque tentam matar-me?" pensou Armando no meio daquela algazarra de vozes, gritos e dor.
Por escassos instantes o unico impulso do qual tomou conhecimento, impelia-o a mergulhar naquele mundo de emoções, simbolizado no seu olhar limpido.
Depois esse impulso passou, e ficou a vontade consciente de mergulhar naquele olhar sem hesitações.
Era demasiado. Estava mesmo ali e falando para ele.
E a sua voz. Aquela voz tinha algo de doce e transmitia uma paz que se tornava difícil de descrever. E mostrava-se preocupada. Ela que alguns minutos antes nem sequer sabia da sua existência.
- Sente-se bem ? – perguntou.
- Sim, sim, respondeu após alguns breves instantes de hesitação, tentando levantar-se rapidamente.
Sem uma explicação aparentemente válida, de um momento para o outro todas as suas anteriores sensações de fraqueza tinham desaparecido, e sentia-se subitamente a pessoa mais forte do mundo.
A mais forte, mas também a mais apaixonada.
Se o amor existia, se era possível que alguém se apaixonasse por outrém numa questão de segundos, então aquilo que ele estava a sentir era amor.
Se não era possível, passaria a ser a partir daquele instante, porque ele estava apaixonado e tinha a absoluta consciência desse facto.
De repente tudo à sua volta deixou de se reger lógicamente.
Só ela fazia sentido. Não que escutasse algo do que ela falava, mas sim porque ela falava para si.
E que sensação.
Descrever com minúcia os instantes seguintes, tornar-se-ia fastidioso dado o caleidoscópio de emoções que experimentara, e que por essa razão se apresentava como impossível de descrever.
E porque nada de mais inteligente lhe ocorreu nesse momento, somente bulbuciou um tímido “Olá”.
Ela, talvez apercebendo-se do seu constrangimento, sorriu com aquele sorriso doce que anteriormente o tinha já cativado.
- Que aconteceu ? Perguntou Armando.
- Foi um cano do gás que rebentou. Acho que se aleijou alguém, disseram.
Armando olhou rapidamente para si mesmo e constatou que estava bem. Tinha sido uma coincidência, o facto de ao desfalecer se ter escutado tão grande estampido, e o homem a correr, pensou. Coitado do homem quem quer que fosse. Alguém que se calhar tentava inteirar-se da existência ou não de vitimas.
Coincidências. Simplesmente coincidências.
Ela ajudou-o a levantar com algum cuidado ao verificar a existência dos membros fracturados.
- Cuidado, dizia ela.
- Qual cuidado, qual quê. Nada doía naquele instante. Estava totalmente sarado.
Apoiou-se no ombro dela, que meigamente o segurou pela cintura de modo a conseguir sair dali. Andaram uns poucos passos, e sentaram-se num banco de jardim que por ali se encontrava, e ficaram ambos a olharem-se olhos nos olhos sem saberem muito bem o que dizerem, mas acima de tudo sem se importarem demasiado com esse facto. Somente os seus olhares se cruzavam.
E esses diziam as palavras que as suas bocas se recusavam a proferir.
Era perceptível no ar aquela sensação de que algo está para acontecer, somente que ninguém poderá prever quando nem o quê.
E foi ele o primeiro a quebrar o silêncio. Tentou apresentar-se, e dizer talvez até algo mais, mas curiosamente as única palavras que a sua boca proferiu foram, “Obrigado”. Ela soltou uma gargalhada forte, deixando-o sem saber muito bem o que dizer ou fazer.
- Qual foi a piada – pensou.
Decorrido algum tempo ela perguntou-lhe com o mesmo à vontade: como te chamas ?
Moras em Lisboa ?
Porque estás todo engessado?
Estás cá internado ?
Eram perguntas em catadupa, e ele não estava a conseguir responder a elas com o à vontade que desejaria.
Aos poucos lá foi dizendo que se chamava Armando, que sim, vivia em Lisboa, e que embora já tivesse estado ali internado, neste momento ali estava porque um familiar seu estava a ser assistido nas Urgências, e aproveitando o balanço, lá foi contando como é que o Filipe se tinha aleijado, sem no entanto entrar em muitos detalhes quando a si mesmo a conversa dizia respeito. Ela escutava-o, demonstrando um interesse, que servia para o incentivar a falar, falar, falar.
Passado algum tempo (quanto não sabia), disse:
E tu ? Conta-me algo sobre ti. Que fazes ? Como te chamas? Moras cá ? O que estavas aqui a fazer ?
Ela esboçou um sorriso e disse: “Tantas perguntas”. Que curioso deves ser.
Aquele simples sorriso desarmou-o. Ela no entanto começou por dizer que se chamava Ana, que era psicóloga e que estava ali porque tinha sido convidada para falar num congresso, na qualidade de convidada especial. Morava no Algarve e adorava esse facto.
E mais ?
– perguntou Armando. Ela sorriu de novo, e respondeu:
- Isso terás de ser tu a descobrir.
- Olha lá – disse, porque não vais lá abaixo descansar durante uns dias?
Disse isto de um modo tão naturalmente surpreendente que se existissem ali moscas, provavelmente a sua boca teria ficado cheia delas, tal foi o seu espanto.
- E fico onde ? – articulou.
- Em minha casa. Porquê ? Tens alguma coisa contra ?
- Não – respondeu – não.
"-Tio!!! Tio!!!! Tio!!!!"
Gritavam as crianças em vão, querendo que o tio acordasse, afinal tinha adormecido ali enquanto elas brincavam no jardim, e, agora elas queriam que ele se juntasse a elas.
Mas... ele sorria mesmo de olhos fechados... como se estivesse a flutuar além das estrelas.
"-Tio!!! Tio!!!! Tio!!!Acorda, vá lá" já gritavam as crianças impacientes.
"-Hã????" acordou Armando meio estonteado, como que tentando se orientar.
"- Tio!!! Vá lá1!! assim não tem piada, tu adormeces cada vez que a gente te deixa um bocadinho!!! Agora é a tua vez de ficares no jogo das escondidas!"
Armando nem queria acreditar. Todas aquelas aventuras pareciam tão reais... tão desesperantes, mas ao mesmo tempo tão estonteantes... pelo menos ela... até se atreveu! sim, só em sonhos, pensou ele.
"-Então vamos lá cambada, todos à molhada! E não garanto que não adormeça outra vez a contar..." disse enquanto dava uma gargalhada
E enquanto tentava de algum modo brincar com as crianças, uma ideia "martelava-lhe" insistentemente na cabeça. Tudo aquilo parecia ter sido tão real, tão vivido.
Não era homem de se deixar conduzir por pressentimentos, mas que pelo menos uma vez na vida iria deixar-se guiar pelos seus instintos, quer eles fossem produto de um sonho ou não.
Tudo aquilo tinha sido demasiado real e belo e se os sonhos existem realmente, então ele iria atrá do seu.
E ali mesmo de olhos tapados e brincando com os sobrinhos tomou talvez a decisão da sua vida.
Se era verdade que antes estava a sonhar, então a gora e acordado decidira tomar a decisão que achara mais acertada.
Seguiria no dia seguinte para o Algarve.
Sem hesitações. Estava decidido.
Ah o Algarve! Essa terra quente e com o cheiro a mar...
Imediatamente veio ao seu pensamento a última vez que lá estivera. Lembrou-se dos seus passeios à noite junto à Ria Formosa, em Olhão. Do seu amigo que o levou a conhecer o interior algarvio.
Levando a mão esquerda ao braço direito e, com um leve sorriso nos lábios, lembrou-se daquela noite em que esteve numa aldeia perto de Olhão a assistir a um concerto que tinha o palco para as bandas dentro de uma ribeira. Foi precisamente quando tocava uma das bandas com um nome engraçado que levou um valente empurrão e foi parar dentro da ribeira, deixando-o todo dorido...
Pensar nisso fazia crescer dentro dele uma expectativa grande! Como se de alguma forma, algo de muito bom e de novo estivesse para acontecer.
Tinha boas lembranças desses dias em Olhão e algo o puxava de novo para lá...
Apenas teria que resolver algumas coisas no trabalho. O facto de trabalhar por conta própria, dava-lhe uma certa liberdade para viajar nesta altura do ano. Iria ligar para o seu amigo Diogo... ele tinha sempre a sua casa aberta para o receber. Assim que tratasse de tudo, seguiria viagem...
Sorriu mais uma vez, vindo à sua mente o nome de Natalina... a bela prima do seu amigo. Mas do que mais se recordava era do seu olhar meigo. Olhar esse que saía de uns “olhos cor de mel”!
Opahhh já vão no algarve...e eu que ainda tenho uns irs para enviar...
Volto cá amanha par ver se não terá sido engano no nome da maravilhosa com olhos cor de mel...
Este comentario não é parte da historia, só faz historia nos comentarios do post...
Não porque Natalina fizesse de algum modo o seu "género", mas porque achou engraçado o facto de se recordar assim de repente de alguem que já não via fazia alguns anos, e que se algo teria em comum com toda aquela história, eram efectivamente os seus olhos, pois que tudo o resto jamais poderia algo a ver com a sua pessoa.
Não que a moça fosse de algum modo antipática ou pouco dada a novos conhecimentos ou experiências. Não. Simplesmente era daquelas pessoas que nada lhe dizia, e que jamais o conseguiria cativar para alem daquilo que se resumisse a uma bela "amizade colorida". Só isso.
Mas, e porque prezava demasiado a amizade de Diogo, amigo de "outras batalhas", preferia descartar para já a tal hipótese da "amizade colorida". No futuro, talvez sim, talvez não. Por ora preferia ir para descansar e procurar a mulher por quem ele estava efectivamente apaixonado, e da qual não sabia mais do que aquilo que um duvidoso sonho lhe tinha revelado.
Mas, e se como diz a canção, " o sonho comanda a vida", então ele iria em busca da realização do seu, e decerto essa mesma vida que ele tanto prezava o bafejaria com a retribuição do amor que ele buscava e que tinha a firme certeza de existir algures, porque nestas coisas o coração não se engana de todo, e quem ama de verdade sabe que um grande amor espera por cada um de nós.
E embalado por estes pensamentos, tendo como som de fundo o som produzido pelas rodas do comboio ao passar pelas juntas dos carris, adormeceu.
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