Capítulo 1. Rumo ao Portão principal

A manhã estava fria quando ele saiu do hospital. O sol de Inverno espreitava com os seus dedos por entre a folhagem verde-acastanhado das árvores, prenunciando a Primavera. Ouviam-se pequenos pardais, tordos e cotovias chilreando e ele inspirou aquele ar fresco e renovador, como que limpando a densidade complexa da alma. Olhou para o céu e sorriu feliz enquanto caminhava para o portão principal.
Assomaram-lhe à ideia, fragmentos ténues de momentos bem passados.
Por breves instantes, quase que poderia afirmar que os tinha revivido. Mas não. Eram somente recordações.
Recordações que de tão ilusórias naqueles breves instantes, lhe custavam a crer que alguma vez tivessem ou pudessem ter sido reais.
Mas factos são factos, e uma das provas de que tudo não tinha sido um mero sonho, estava no facto dele se encontrar ali.
E à medida que ia divagando sobre algumas outras coisas mais ou menos importantes, o portão principal aproxima-se, e com ele um mundo que um dia lhe tinha sido hostil.
Pensei para comigo mesmo: se a folhagem já está verde-acastanhada, a Primavera está aí a chegar. Logo, logo, logo os pequenos pardais, tordos e cotovias que chilream vão-se procriar e gerar novas vidas...
Eu quero participar nesta nova vida que se renova estação a estação.
Após o longo Inverno que passei, é tempo de deixar para trás a estação no seu tempo próprio e começar a viver na plenitude esta nova estação que Deus me apresenta através deste lindo, belo, inspirador cenário...
Porque se eu não viver esta nova estação, as estações que se lhe seguem não vão ser as estações correctas a serem vividas...
Um novo Inverno há-de chegar, então...
Então é tempo de viver a estação própria em cada tempo!
Viva a nova estação!
Viva a minha saída do hospital!
Era chegado o tempo de encerrar esta etapa (mais uma), da sua vida.
Era seu propósito dispensar algum tempo fazendo não uma análise, mas antes "A ANÁLISE" de alguns acontecimentos.
Tudo o que até aqui tinha acontecido, certamente que não acontecera por mero acaso, pois que nada acontece por acaso.
Atribuir todos ou somente alguns destes factos ao destino, seria de todo inconcebível, em virtude de numa lógica de probabilidades, ser de todo impossível que tantos e tão díspares acontecimentos se encadeassem deste modo.
Tudo começava a tornar-se demasiado confuso no seu espírito.
As coisas vistas deste modo, ganhavam uma dimensão tal, que se tornavam assustadoras por momentos.
Tentar dissimular isso, seria no mínimo insensato.
Ceder aos seus medos tornar-se-ia com o tempo, demasiado sofrível.
Então que atitude tomar?
Primeiro, pensou nas pessoas que conheceu enquanto esteve no hospital. Outros, como ele. Transportando cada um a sua doença. Ele lembrava-se bem de como estava revoltado e inseguro com tudo o que lhe tinha acontecido. No entanto, quando começou a falar com algumas daquelas pessoas, apercebeu-se que não era o único. E que, muitas delas, tinham, uma atitude positiva e confiante. Alguns casos eram terminais. Mas ainda assim, era fantástico como se agarravam à vida, vivendo cada dia de forma a que valesse a pena tê-lo vivido. E isso, foi o primeiro impacto para ele. Talvez não estivesse a ver a situação como deveria ser vista. Talvez pudesse aprender alguma coisa com o seu tempo ali, naquele hospital. E aprendeu, sem dúvida.
O que o mais marcou, foi um menino de 12 anos apenas, mas que devido a uma leucemia, o seu tempo de vida não era muito. No entanto, acabou por ser essa criança a trazer-lhe força e esperança. Não havia nele mágoa, revolta, mas um brilho imenso no seu olhar, um cuidado pelos outros que ele havia perdido há muito. O menino lia para outros que estavam impossibilitados de ler, cantava canções; outras vezes, apenas estava do lado de alguém, em silêncio. Mas em vez de se lamentar, ele procurou ser útil a quem ainda estivesse pior que ele. Marcou-o muito, essa criança!
E aos poucos, começou a lembrar-se de tantos outros...
Lembrou-se por exemplo... da Joana!
A Joana, uma criança muito especial, que já tinha entregue a sua vida a Cristo, e, que vivia a crença de uma forma muito límpida e pura. Aos 10 anos e meio começou a ter dores de cabeça. Dores de crescimento, diziam. Veio a ser diagnosticado um cancro na cabeça.
Primeiro... foi ficando sem visão. Então... Estava determinada a aprender Braille e a ajudar outras pessoas que fossem cegas.
Depois... depois a doença agravou-se, e, o sofrimento foi terrível. Não foram os adultos a dar-lhe força, foi ela que deu força aos adultos. Determinou que Deus faria o que fosse melhor para ela. Muita gente mudou a sua vida e o seu carácter graças a esta criança.
Lembrei-me do dia em que me contaram que ela deu um abraço forte a uma das avós e disse-lhe: “não tenhas medo avó! Eu amo-te!”.
Lembrei-me dos dias em que ela já não falava, não via, só gemia naquela cama do hospital. E gemia muito. As dores eram terríveis.
Este sofrimento prolongou-se por cerca de dois anos.
Ainda assim, um dia ela apontou-me para a janela.
Primeiro não percebi... depois... depois vi que apontava para a janela porque uns pássaros tinham ido para ali chilrear.
Foi um tempo muito doloroso para mim. Ver como eu era tão fraca. Ver como ela sofria. Vi a coragem dos pais… uma das vezes... ela deixou de respirar, e, eles sussurraram-lhe ao ouvido: “Respira Joana, respira...” e ela suspirou e voltou a respirar.
No hospital aprende-se muito.
Aprende-se como somos miseráveis, egoístas, vazios. Quando passei aquele portão, verifiquei que o "E agora?" Tem de ser diferente, tem que ter a sua estação própria, mas tem que ser encarado não como se eu fosse o dono das certezas, mas das incertezas. Apenas a Deus cabe as Certezas, as Verdades Absolutas, os Porquês! Quem sou eu para questionar o Criador?
“Ninguém”, foi a resposta que soou (pareceu-me a mim) dentro da minha cabeça.
“Grande génio que eu sou”, pensei eu, sorrindo para mim mesmo, por ter achado alguma graça a uma redundância de pensamentos que só por si seriam conclusões óbvias.
De resto, a Joana era um (talvez aquele que mais me tinha tocado) dos muitos casos de sofrimento a que tinha assistido, e que me levaram tantas e tantas vezes a fazer a pergunta: “Porquê meu Deus?” “Porquê ela?”.
Questões às quais embora conhecesse as respostas, por via do meu longo caminhar na fé, se tornavam de algum modo mais difíceis de compreender, quando se passavam ali ao meu lado, com seres frágeis, que se algum pecado tinham cometido nesta existência, dificilmente seria outro diferente do seu nascimento, e que por uma conjuntura de todo abstracta (será que era?), a vida se tinha encarregado de me fazer conhecer.
Com que propósito, isso eu desconhecia.
Sabia no entanto, que fosse qual fosse, me faria emergir dele com outra postura não só perante a vida em geral, mas sobretudo perante os meus semelhantes.
Constatava hoje, que era algo diferente da pessoa ingénua e caridosa que tinha transposto aqueles portões em sentido contrário, cheia de temores e incertezas quanto ao seu futuro, e porque não dizê-lo, quanto ao seu destino. Sentia que de algum modo a palavra “amar” tinha algumas interpretações bem diferentes daquelas que eu até ali considerava correctas.
Tinha aprendido que somente conseguimos amar na justa proporção daquilo que sofremos, quer esse sofrimento seja infligido directamente ao nosso corpo, quer nos seja imputado através do sofrimento daqueles a quem mais amamos.
Tinha aprendido o quanto podia ser egoísta.
Tinha aprendido o quanto necessitava do meu semelhante.
Tinha aprendido o significado de sofrer em silêncio.
Tinha aprendido o significado de ter medo.
Tinha sobretudo aprendido que não era ninguém, independentemente da importância que julgava possuir.
Na sua recém-adquirida segurança, atravessou a estrada em passos rápidos.
O embate foi violento, mas a princípio não entendeu que se passava algo consigo.
Apenas quando a sirene da ambulância lhe tocou aos ouvidos entendeu que afinal o seu destino parecia inexoravelmente preso àquele hospital.

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Primeiro, pensou nas pessoas que conheceu enquanto esteve no hospital. Outros, como ele. Transportando cada um a sua doença. Ele lembrava-se bem de como estava revoltado e inseguro com tudo o que lhe tinha acontecido. No entanto, quando começou a falar com algumas daquelas pessoas, apercebeu-se que não era o único. E que, muitas delas, tinham, uma atitude positiva e confiante. Alguns casos eram terminais. Mas ainda assim, era fantástico como se agarravam à vida, vivendo cada dia de forma a que valesse a pena tê-lo vivido. E isso, foi o primeiro impacto para ele. Talvez não estivesse a ver a situação como deveria ser vista. Talvez pudesse aprender alguma coisa com o seu tempo ali, naquele hospital. E aprendeu, sem dúvida.
O que o mais marcou, foi um menino de 12 anos apenas, mas que devido a uma leucemia, o seu tempo de vida não era muito. No entanto, acabou por ser essa criança a trazer-lhe força e esperança. Não havia nele mágoa, revolta, mas um brilho imenso no seu olhar, um cuidado pelos outros que ele havia perdido há muito. O menino lia para outros que estavam impossibilitados de ler, cantava canções; outras vezes, apenas estava do lado de alguém, em silêncio. MAs em vez de se lamentar, ele procurou ser útil a quem ainda estivesse pior que ele. Marcou-o muito, essa criança!
E aos poucos, começou a lembrar-se de tantos outros...
Lembrou-se por exemplo... da Joana!
A Joana, uma criança muito especial, que já tinha entregue a sua vida a Cristo, e, que vivia a crença de uma forma muito limpida e pura.
Aos 10 anos e meio começou a ter dores de cabeça.
Dores de crescimento, diziam.
Veio a ser diagnosticado um cancro na cabeça.
Primeiro... foi ficando sem visão.
Então... Estava determinada a aprender braille e a ajudar outras pessoas que fossem cegas.
Depois... depois a doença agravou-se, e, o sofrimento foi terrível.
Não foram os adultos a dar-lhe força, foi ela que deu força aos adultos.
Determinou que Deus faria o que fosse melhor para ela. Muita gente mudou a sua vida e o seu carácter graças a esta criança.
Lembrei-me do dia em que me contaram que ela deu um abraço forte a uma das avós e disse-lhe: não tenhas medo avó! Eu amo-te!
Lembrei-me dos dias em que ela já não falava, não via, só gemia naquela cama do hospital. E gemia muito. As dores eram terríveis.
Este sofrimento prolongou-se por cerca de dois anos.
Ainda assim, um dia ela apontou-me para a janela.
Primeiro não percebi... depois... depois vi que apontava para a janela porque uns pássaros tinham ido para ali chilrear...
Foi um tempo muito doloroso para mim. Ver como eu era tão fraca. Ver como ela sofria...
Vi a coragem dos pais... uma das vezes... ela deixou de respirar, e, eles sussurraram-lhe ao ouvido: Respira Joana, respira... e ela suspirou e voltou a respirar.
No hospital aprende-se muito.
Aprende-se como somos miseráveis, egoístas, vazios...
Quando passei aquele portão, verifiquei que o "E agora?"
Tem de ser diferente, tem que ter a sua estação própria, mas tem que ser encarado não como se eu fosse o dono das certezas, mas das incertezas. Apenas a Deus cabe as Certezas, as Verdades Absolutas, os Porquês! Quem sou eu para questionar o Criador?
“Ninguém”, foi a resposta que soou (pareceu-me a mim) dentro da minha cabeça.
“Grande génio que eu sou”, pensei eu, sorrindo para mim mesmo, por ter achado alguma graça a uma redundância de pensamentos que só por si seriam conclusões óbvias.
De resto, a Joana era um (talvez aquele que mais me tinha tocado) dos muitos casos de sofrimento a que tinha assistido, e que me levaram tantas e tantas vezes a fazer a pergunta: “Porquê meu Deus ?” “Porquê ela ?”.
Questões às quais embora conhecesse as respostas, por via do meu longo caminhar na fé, se tornavam de algum modo mais dificeis de compreender, quando se passavam ali ao meu lado, com seres frágeis, que se algum pecado tinham cometido nesta existência, dificilmente seria outro diferente do seu nascimento, e que por uma conjuntura de todo abstracta (será que era ? ), a vida se tinha encarregado de me fazer conhecer.
Com que propósito, isso eu desconhecia.
Sabia no entanto, que fosse qual fosse, me faria emergir dele com outra postura não só perante a vida em geral, mas sobretudo perante os meus semelhantes.
Constatava hoje, que era algo diferente da pessoa ingénua e caridosa que tinha transposto aqueles portões em sentido contrário, cheia de temores e incertezas quanto ao seu futuro, e porque não dizê-lo, quanto ao seu destino. Sentia que de algum modo a palavra “amar” tinha algumas interpretações bem diferentes daquelas que eu até ali considerava correctas.
Tinha aprendido que sómente conseguimos amar na justa proporção daquilo que sofremos, quer esse sofrimento seja inflingido directamente ao nosso corpo, quer nos seja imputado através do sofrimento daqueles a quem mais amamos.
Tinha aprendido o quanto podia ser egoista.
Tinha aprendido o quanto necessitava do meu semelhante.
Tinha aprendido o significado de sofrer em silêncio.
Tinha aprendido o significado de ter medo.
Tinha sobretudo aprendido que não era ninguém, independentemente da importância quejulgava possuir.
Na sua recém-adquirida segurança, atravessou a estrada em passos rápidos.
O embate foi violento, mas a princípio não entendeu que se passava algo consigo.
Apenas quando a sirene da ambulância lhe tocou aos ouvidos entendeu que afinal o seu destino parecia inexoravelmente preso àquele hospital.
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