domingo, março 19, 2006

Capítulo 3. Em casa de Júlia

Acordou pela manhã, sentindo-se algo perdido. Ouvia o riso de crianças, e lembrou-se dos sobrinhos. Júlia, abre a porta do quarto, espreitando ansiosa, tentando manter as crianças caladas, mas em vão. Pergunta, com um sorriso doce:
-Já acordaste? Precisas de algo?
Ele sorri também, ainda cansado, fazendo uma careta, ao tentar levantar-se.
-Deixa-te estar, mais um pouco - Diz a irmã - Trago-te aqui o pequeno almoço!
Nisto, os sobrinhos, impacientes pedem para ver o tio. A mãe tenta impedir, mas ele diz para os deixar entrar, ao que eles obedecem de bom grado.
Entram no quarto, e sossegam miraculosamente, olhando com ternura o tio querido. Aproximam-se da cama de ferro, beijam o tio, e um dos meninos, diz:
-Sabes tio, gostamos tanto de ti! Vamos estar sempre aqui, para te amar e dar força! Tens que ficar bom, para poderes dar-nos a tua mão e brincar connosco, como antes!
Ele olhou aqueles rostinhos ansiosos, e achou que ali estava uma boa razão, para recomeçar.
Olhou para a janela, o sol brilhava e um pardalito saltitava no parapeito.

Perdeu-se assim em momentos que lhe pareceram eternidades, entre o sentir das dores que se manifestavam a cada gesto seu, e os pensamentos que lhe assaltavam o espírito sobre aquela lembrança que permanecia tão real no sentir da memória.
Teria sido só sonho, questionava-se, se foi então porque sentia dores por todo o corpo, e porque seus sobrinhos pareciam aliviados por poder dizer quanto o amavam. Seu coração acelerou-se ao recordar daqueles olhos cor de mel, e julgou estar aí a razão para se levantar.
Voltou a olhar para a janela e um raio de luz veio de encontro aos seus olhos semicerrados, a decisão estava tomada, ia buscar as respostas. Levantou-se, chamou os sobrinhos e depositou um carinhoso beijo em seus suaves rostos.

Onde iniciar a sua busca? Quem o poderia ajudar a encontrar a pessoa cujo olhar tanto o marcou e tanta serenidade lhe transmitiu?
Tinha que regressar ao hospital e ao quarto onde viu esse olhar pela última vez. Com toda a certeza que alguém lhe daria alguma pista ou até saberia dizer quem foi que cuidou dele. O local que pensou deixar para sempre, iria ser o início da sua busca. Ali, encontraria algumas respostas.

Mas seria essa realmente a melhor opção?
Ao fim e ao cabo, nem sequer tinha a certeza de ter sido lá o local onde tão enigmática figura lhe tinha surgido.
E voltar assim carregado de incertezas a um local que para si, se revestia de um sem número de dolorosas recordações, poderia transformar-se para si num verdadeiro calvário.
A mente – pensou ele - por vezes prega-nos algumas partidas.

“E voltar assim sem certezas de maior”, continuou a pensar, desta vez em voz alta, sem que se apercebesse desse facto, “poderá ser de péssimo gosto. Poderei até deparar ou relembrar alguns outros episódios que o meu subconsciente esteja a tentar reprimir de modo a tentar proteger-me. Não é de descartar essa hipótese. Forçar então as coisas para quê?”
Nem sequer reparou que encostada à ombreira da porta, Júlia o escutava em silêncio e com um semblante algo preocupado. Tinha-se mantido em silêncio ao longo de todo o monólogo, preocupada sobretudo em tentar passar despercebida, de modo a não interromper o raciocínio que o seu irmão se dispunha a completar. Que ele conseguisse colocar todas as suas ideias em ordem, era o que mais desejava em prol da saúde mental do seu irmão mais novo. Também, a vida não tinha sido muito generosa para com ele. Certo era, e tornava-se forçoso afirmá-lo, que também ele não tinha feito grande coisa para tentar mudar esse rumo, mas era o seu irmão, e acima de tudo ela desejava o melhor para ele, e entre esse melhor incluía-se decerto a sua sanidade mental.

- Estás a falar sozinho, Armando? - perguntou Júlia.

- Sim - respondeu, estremecendo. Não reparou que a sua irmã se encontrava ali, a escutar o que ele falava em voz alta.
- Porque não levas os teus sobrinhos a passear ao jardim? Está um dia de sol tão bonito!
Ele olhou para a sua irmã e percebeu os motivos por detrás daquele pedido. Mas pensou que talvez ela tivesse razão.
- É uma boa ideia! O dia está lindo e as crianças vão ser uma boa companhia. Aproveitamos e vamos comer um bolo na nova Pastelaria. Preciso mesmo de espairecer um pouco. Nada como a companhia dos meus sobrinhos!
Júlia sorriu, satisfeita. Sabia que a companhia dos seus filhos naquele momento, seria uma excelente terapia para Armando. Eles amavam muito o tio.

Foi para o jardim com as crianças. Elas saltavam que nem macaquitos à sua frente e empurravam-se, depois riam-se, olhando para trás, para ver se tinham aprovação ou reprovação.
Armando olhou para elas, sorriu e pensou: "Que urso que sou! Quanta esperança em cada sorriso matreiro e ao mesmo tempo tão inocente. Não sou assim tão mau, para que esteja nesta constante depressão que me manda para um fundo sem fundo. Tenho a certeza que Deus não me vê como eu me vejo, mesmo quando faço coisas erradas. A minha irmã é fantástica! Ela sabe da vida. Ela sabia que esta minha ida até ao jardim com as crianças iria trazer-me a alegria e alguma frescura de vida!"

- Então crianças, vamos lá à pastelaria! - disse Armando contagiado pela alegria das crianças.

Filipe corria atrás da sua irmã Teresa pelo jardim fora. De repente, e quando contornavam um Carvalho frondoso, escorregou na erva fresca e húmida caindo desamparado na relva. A criança, que estaria agora com os seus oito anos, começou aos gritos apavorado no chão. Armando dirigiu-se o mais rapidamente que conseguiu na direcção de Filipe. Viu Sangue. Muito sangue na mão esquerda do miúdo. Perto dele um enorme vidro de um fundo de uma garrafa partida.





Armando pensou: "Bem, agora posso desesperar ou simplesmente agir com calma, sabendo que nada acontece por acaso."
- Calma, meu amor, tem calma – disse ele ao seu sobrinho.
- Ele está bem? - perguntou a irmã ofegante - O que se passou? Mostra-me a tua mão, temos de ir já para o hospital!
"Hospital?" - pensou Armando - "Outra vez? Até quando? Talvez seja a minha oportunidade de conhecer melhor a rapariga do olhar cor de mel"

Teresa, apesar dos seus cinco anos, compreendia que o seu irmão sofria. Armando encheu-se de ternura, quando ouviu Teresa a confortar o irmão:
- Não chores, mano, por favor. Vais ver que ficas bem!
O corte era profundo e sangrava bastante.
Júlia pegou Filipe ao colo e em passos apressados, dirigiu-se para a rua para chamar um táxi, pois não tinha carro.
É sempre assim - disse Armando - quando precisamos de um táxi, eles desaparecem. Finalmente, surgiu um táxi.
Ele pára e quando se dirigiam para a porta do táxi, um homem abre a porta do outro lado para entrar.
- Desculpe, eu chamei o táxi primeiro - afirmou o homem.
- Até pode ser - disse Armando - mas nós precisamos de seguir urgentemente para o hospital. O meu sobrinho cortou-se e está a sangrar bastante.
- Eu sou médico e dirijo-me agora para o hospital! Podemos ir juntos...
- Pode ser! - disse Armando.
Entraram todos no táxi. O médico sentou-se à frente. Olhou para trás, para observar a mão de Filipe. Viu que o corte era bem profundo, mas não quis alarmar ninguém. Olhou para Armando, fixou-o e disse:
- A sua cara não me é estranha...

Ao escutar estas palavras Armando como que despertou.
“Diga”, foi a palavra que lhe ocorreu balbuciar. Estava de tal modo preocupado com o que acontecera, embora de todo o não desejasse demonstrar, que se abstraíra propositadamente de tudo ao seu redor, para que não se apercebessem do seu estado de espírito.
Aquela pergunta – afirmação tinha tido o condão de o despertar do estado semi-letárgico em que se encontrava. Olhou de novo para aquele rosto e disse:
- A mim? De onde?
Mas logo se arrependeu da pergunta. Claro que só poderia ser do hospital. Que descuido o seu.
A breve conversa que se seguiu durante o resto do trajecto, confirmou esse facto, e reavivou algumas memórias. Entretanto Filipe começava a mostrar alguns sinais de incómodo, provocados pela ferida e das dores que aumentavam à medida que o tempo decorria.
Júlia apercebendo-se disso, começava também a mostrar alguns sinais de inquietude principalmente por causa do sofrimento contido que detectava no seu filho. Teresa choramingava baixinho encostada ao braço do tio, tentando esconder esse facto de modo a não piorar o estado do irmão.
Chegaram finalmente ao Hospital, e porque estavam devidamente acompanhados por um profissional, entraram logo e a criança foi de imediato observada. Armando depois de fazer a inscrição do sobrinho, dirigiu-se para a sala de espera e sentou-se. Devido ao seu actual estado, decerto que só atrapalharia, e alguém tinha de tomar conta da pequena Teresa, enquanto Júlia acompanhava Filipe em todas as fases da sua estada.
Entretanto lá dentro, Júlia perguntava insistentemente aos médicos que observavam o seu filho.
- É grave Doutor? A mãozinha dele vai ficar boa? Por favor, não me esconda nada. Por amor de Deus, o meu filho é uma criança. Ele só estava a brincar. Só tinha ido à pastelaria com o tio e com a irmã, e como é uma criança muito mexida, ao brincar com a irmã à “apanhada”, escorregou e caiu desamparado no chão, no preciso local onde estava uma garrafa partida, e fez isto. Coitadinho dele. Por favor, Doutor salve a mãozinha do meu menino.
- Tenha calma minha senhora – diziam-lhe os médicos que se cruzavam com ela e que examinavam a criança. - Faremos o melhor. Certamente que tudo se comporá. Estamos à espera das radiografias para verificar se algum tendão ou veia foi atingido. Pensamos que não, mas nestas situações, e porque ele sangrou um pouco, nunca são demais as precauções.
- Por favor Doutor. - implorava Júlia.
Alheio a tudo isto, Armando esperava. Para passar o tempo, decidiu observar as pessoas que entravam e saíam. Ali ao canto, duas senhora que ao despique entre si, bastante animado diga-se, desfiavam um rol de doenças, sintomas, “sugestões médicas” devidamente abalizadas pela sua vasta experiência, efeitos e contra-indicações de alguns medicamentos seus conhecidos, doenças de que tinham sofrido e das quais se tinham livrado através de uns chás e ervas que umas vizinhas lhes tinham ensinado, e mais um sem numero de coisas descabidas, e somente aceitáveis por alguém que partilhe do mesmo grau de solidão que afecta aquelas pessoas, porque é de solidão que são feitas todas aquelas queixas e sintomas, e não de qualquer doença, na maioria dos casos.
- Meu Deus, – pensou Armando – não me deixes ficar assim nunca.
Mais afastado, estava sentado um senhor que insistia em dizer mal do sistema. Dizia mal de tudo. A espaços, virava-se para alguém e desatava a falar mal do sistema. Falava, falava, falava. Como ninguém lhe respondesse, escolhia outro e recomeçava de novo.
- Que grande “seca”! Resmungava ele.
De quando em vez, escutava-se uma voz no altifalante, e a pouco e pouco, aquele ambiente começou a deprimi-lo. Retirou do bolso o telemóvel e telefonou a Júlia.
- Está? Júlia, sou eu. Então o menino? Sim? Graças a Deus. Ainda bem. Que alivio. Olha, vou lá fora dar uma volta com a menina. Isto aqui dentro está a fazer-me mal. Não te preocupes connosco. Logo que saibas qualquer coisa telefona. Eu virei aqui fora ter contigo. Beijinhos. Tem calma, o pior já passou. Dá um beijinho ao Filipe por mim.
Júlia disse-lhe para ele falar com o filho, “ele vai gostar”. Armando ao aperceber-se que era o menino que estava do outro lado à escuta, sentiu um nó no peito e somente conseguiu dizer:
- Força rapaz, isso vai passar. Vais ver!


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  • 14 Comments:

    Blogger Lagoa_Azul said...

    Perdeu-se assim em momentos que lhe pareceram eternidades, entre o sentir das dores que se manifestavam a cada gesto seu, e os pensamentos que lhe assaltavam o espírito sobre aquela lembrança que permanecia tão real no sentir da memória.
    Teria sido só sonho, questionava-se, se foi então porque sentia dores por todo o corpo, e porque seus sobrinhos pareciam aliviados por poder dizer quanto o amavam. Seu coração acelerou-se ao recordar daqueles olhos cor de mel, e julgou estar aí a razão para se levantar.
    Voltou a olhar para a janela e um raio de luz veio de encontro aos seus olhos semicerrados, a decisão estava tomada, ia buscar as respostas. Levantou-se, chamou os sobrinhos e depositou um carinhoso beijo em seus suaves rostos.

    4:22 p.m.  
    Blogger Vilma said...

    Aonde iniciar a sua busca? Quem o poderia ajudar a encontrar a pessoa cujo olhar tanto o marcou e tanta serenidade lhe transmitiu?
    Tinha que regressar ao hospital e ao quarto onde viu esse olhar pela última vez. Com toda a certeza que alguém lhe daria alguma pista ou até saberia dizer quem foi que cuidou dele. O local que pensou deixar pra sempre, iria ser o início da sua busca. Ali, encontraria algumas respostas... pensava ele!

    5:39 p.m.  
    Blogger Unknown said...

    mas...
    Seria essa realmente a melhor opção?
    Ao fim e ao cabo, nem sequer tinha a certeza de ter sido lá o local onde tão enigmática figura lhe tinha surgido.
    E voltar assim carregado de incertezas a um local que para si, se revestia de um sem número de dolorosas recordações, poderia transformar-se para si num verdadeiro calvário.
    A mente - pensou - por vezes prega-nos algumas partidas.
    E -continuou a pensar, desta vez em voz alta, sem que se apercebesse desse facto - voltar assim sem certezas de maior, poderá ser de péssimo gosto. Poderei até deparar ou relembrar alguns outros episódios que o meu subconsciente esteja a tentar reprimir de modo a tentar proteger-me. Não é de descartar essa hipótese.
    Forçar então as coisas para quê?
    - Nem sequer reparou que encostada à ombreira da porta, Júlia o escutava em silêncio e com um semblante algo preocupado. Tinha-se mantido em silêncio ao longo de todo o monólogo, preocupada sobretudo em tentar passar despercebida, de modo a não interromper o raciocinio que o seu irmão se dispunha a completar.
    Que ele conseguisse colocar todas as suas ideias em ordem, era o que mais desejava em prol da saude mental do seu irmão caçula. Também, a vida não tinha sido muito generosa para com ele. Certo era, e tornava-se forçoso afirmá-lo, que tambem ele não tinha feito grande coisa para tentar mudar esse rumo, mas era o seu irmão, e acima de tudo ela desejava o melhor para ele, e entre esse melhor icluia-se decerto a sua sanidade mental.

    8:53 p.m.  
    Blogger Jorge Oliveira said...

    - Estás a falar sózinho, Armando? Perguntou Júlia.

    1:10 p.m.  
    Blogger Vilma said...

    - Sim - respondeu, estremecendo. Não reparou que a sua irmã se encontrava ali, a escutar o que ele falava em voz alta.
    - Porque não levas os teus sobrinhos a passear ao jardim? Está um dia de sol tão bonito!
    Ele olhou para a sua irmã e percebeu os motivos por detrás daquele pedido. Mas pensou que talvez ela tivesse razão.
    - É uma boa ideia! O dia está lindo e as crianças vão ser uma boa companhia. Aproveitamos e vamos comer um gelado à nova geladaria. Preciso mesmo de espairecer um pouco. Nada como a companhia dos meus sobrinhos!
    Julia sorriu, satisfeita!
    Sabia que a companhia dos seus filhos naquele momento, seria uma excelente terapia para Armando. Eles amavam muito o tio....

    2:39 p.m.  
    Blogger Tinoca Laroca said...

    Foi para o jardim com as crianças que à sua frente saltavam que nem macaquitos, empurravam-se, depois riam-se, olhando para trás, para ver se tinham aprovação ou reprovação.
    Armando olhou para elas, sorriu e pensou:
    "- Que urso que sou! Quanta esperança em cada sorriso matreiro e ao mesmo tempo tão inocente! Não sou assim tão mau, para que esteja nesta constante depressão que me manda para um fundo sem fundo! Deus olha-me assim, e, mesmo quando faço coisas erradas... Ele às vezes até deve achar alguma graça... entre o meu pecado matreiro e a inocência das consequências.
    A minha irmã é fantástica! Ela sabia algo... sabia que este meu vir até ao jardim com as crianças me iria trazer a alegria de um novo renascer para a VIDA!"
    "- Então crianças, vamos lá à geladaria!" disse Armando com uma alegria contagiante.

    9:59 p.m.  
    Blogger Jorge Moreira said...

    Uma ideia maravilhosa de partilha e cooperação.
    Pode ser que venha a escrever alguma coisa.
    Grande Abraço a todos, especialmente à pessoa com a ideia original.

    10:13 p.m.  
    Blogger Jorge Oliveira said...

    Jorge Moreira,
    Obrigado pelas tuas palavras e sejas muito bem-vindo a este humilde "Bloglivro"...lol

    Fico a aguardar a tua contribuição para o texto.

    Abraços
    JO

    10:31 a.m.  
    Blogger Jorge Oliveira said...

    Filipe corria atrás da sua irmã Teresa pelo jardim fora. De repente, e quando contornavam um Carvalho frondoso, escorregou na erva fresca e húmida e caiu desamparado na relva. A criança que estaria agora com os seus oito anos, começou aos gritos apavorado no chão. Armando dirigiu-se o mais rapidamente que conseguia em direcção de Filipe. Sangue. Muito sangue na mão esquerda do miúdo. Perto dele um enorme vidro de um fundo de uma garrafa partida.

    11:26 a.m.  
    Blogger Paula said...

    Armando pensou: "Bem, agora posso desesperar ou simplesmente agir com calma, sabendo que nada acontece por acaso."

    - Calma, meu amor, tem calma -
    disse ele ao seu sobrinho.

    - Ele está bem? - perguntou a irmã ofegante - O que se passou? Mostra-me a tua mão, temos de ir já para o hospital!

    "Hospital?" - pensou Armando - "Outra vez? Será a minha oportunidade?"

    4:05 p.m.  
    Blogger Vilma said...

    Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

    1:11 p.m.  
    Blogger Vilma said...

    Teresa, apesar dos seus cinco anos, compreendia que o seu irmão sofria. Armando encheu-se de ternura, quando ouviu Teresa a confortar o irmão:
    - Não chores, mano! Por favor, vais ver que vais ficar bem!
    O corte era profundo e sangrava bastante.
    Júlia pegou Filipe ao colo e em passos apressados, dirigiu-se para a rua para chamar um táxi, pois não tinha carro.
    É sempre assim - disse Armando - quando precisamos de um táxi, eles desaparecem.
    Finalmente, surge um táxi.
    Ele pára e quando se dirigem para a porta do táxi, um homem abre a porta do outro lado para entrar.
    - Desculpe, eu chamei o táxi primeiro, afirmou o homem.
    - Até poderia ser, disse Armando, mas nós precisamos de seguir urgentemente para o hospital. O meu sobrinho cortou-se e sangra bastante.
    - Eu sou médico e dirijo-me agora para o hospital! Podemos ir juntos...
    - Pode ser! - disse Armando.
    Entraram todos no táxi. O médico sentou-se à frente. Olhou para trás, para observar a mão de Filipe.
    Viu que o corte era bem profundo, mas não quis alarmar ninguém.
    Olhou para Armando, fixou-o e disse:
    - A sua cara não me é estranha...

    3:28 p.m.  
    Blogger BlueShell said...

    Tenho de vir aqui mais vezes….
    Jinhos, BShell

    11:18 p.m.  
    Blogger Unknown said...

    Ao escutar estas palavras Armando despertou.
    Diga – foi a palavra que lhe ocorreu balbuciar. Estava de tal modo preocupado com o que acontecera, embora de todo o não desejasse demonstrar, que se abstraira propositadamente de tudo ao seu redor, para que não se apercebessem do seu estado de espírito.
    Aquela pergunta – afirmação tinha tido o condão de o despertar do estado semi-letárgico em que se encontrava. Olhou de novo para aquele rosto e disse: a mim?
    - De onde?
    Mas logo se arrependeu da pergunta. Claro que só poderia ser do hospital. Que descuido o seu.
    A breve conversa que se seguiu durante o resto do trajecto, confirmou esse facto, e reavivou algumas memórias. Entretanto Filipe começava a mostrar alguns sinais de incómodo, provocados pela ferida e em virtude das dores que aumentavam à medida que o tempo decorria.
    Júlia apercebendo-se disso começava também a mostrar alguns sinais de inquietude, em virtude do sofrimento contido que detectava no seu filho e Teresa choramingava baixinho encostada ao braço do tio, tentando esconder esse facto de modo a não piorar o estado do irmão.
    Chegaram finalmente, e porque estavam devidamente acompanhados por um profissional, logo entraram e a criança foi de imediato observada. Armando depois de fazer a inscrição do sobrinho, dirigiu-se para a sala de espera e sentou-se. Devido ao seu actual estado, decerto que só atrapalharia, e alguém tinha de tomar conta da pequena Teresa, enquanto Júlia acompanhava Filipe em todas as fases da sua estada.
    Entretanto lá dentro Júlia perguntava insistentemente aos médicos que observavam o seu filho.
    - É grave doutor?
    - A mãozinha dele vai ficar boa?
    - Por favor, não me esconda nada. Por amor de Deus, o meu filho é uma criança. Ele só estava a brincar. Só tinha ido à pastelaria com o tio e com a irmã, e como é uma criança muito mexida, ao brincar com a irmã à “apanhada”, escorregou e caiu desamparado no chão, no preciso local onde estava uma garrafa partida, e fez isto. Coitadinho dele.
    - Por favor, Dr. salve a mãozinha do meu menino.
    - Tenha calma minha Sr.ª – diziam-lhe os médicos que se cruzavam com ela, ou que examinavam a criança.
    - Faremos o melhor. Certamente que tudo se comporá.
    - Estamos à espera das radiografias para verificar se algum tendão ou veia foi atingido.
    - Pensamos que não, mas nestas situações, e porque ele sangrou um pouco, nunca são demais as precauções.
    - Por favor Dr. - implorava Júlia.
    Alheio a tudo isto, Armando esperava. Para passar o tempo, decidiu observar as pessoas que entravam e saíam. Ali ao canto, duas senhora que ao despique entre si, bastante animado diga-se, desfiavam um rol de doenças, sintomas, “sugestões médicas” devidamente abalizadas pela sua vasta experiência, efeitos e contra-indicações de alguns medicamentos seus conhecidos, doenças de que tinham sofrido e das quais se tinham livrado através de uns chás e ervas que umas vizinhas lhes tinham ensinado, e mais um sem numero de coisas descabidas, e somente aceitáveis por alguém que partilhe do mesmo grau de solidão que afecta aquelas pessoas, porque é de solidão que são feitas todas aquelas queixas e sintomas, e não de qualquer doença, na maioria dos casos.
    - Meu Deus – pensou Armando – não me deixes ficar assim nunca.
    Mais além estava sentado um senhor que insistia em dizer mal do sistema. Dizia mal de tudo. A espaços, virava-se para alguém e desatava a falar mal do sistema. Falava, falava, falava. Como ninguém lhe respondesse, escolhia outro e recomeçava de novo.
    - Que grande “seca”.
    A espaços escutava-se uma voz no altifalante, e a pouco e pouco aquele ambiente começou a deprimi-lo um pouco. Retirou do bolso o telemóvel e telefonou a Júlia.
    - Está? Júlia, sou eu.
    - Então o menino?
    - Sim? Graças a Deus.
    - Ainda bem. Que alivio.
    - Olha, vou lá fora dar uma volta com a menina.
    - Isto aqui dentro está a fazer-me mal.
    - Não te preocupes connosco. Logo que saias telefona. Eu virei aqui fora ter contigo.
    - Beijinhos. Tem calma, o pior já passou. Dá um beijinho ao Filipe por mim.
    Júlia disse – olha diz-lhe tu. Ele vai gostar. E dizendo isto passou o telefone ao filho.
    Armando ao aperceber-se que era o menino que estava do outro lado à escuta, sentiu um nó no peito e somente conseguiu dizer.
    - Força puto, isso vai passar. Vais ver.

    10:32 a.m.  

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